2 de abril de 2009


Poema à boca fechada
José Saramago

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi
:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi
,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(In OS POEMAS POSSÍVEIS,
Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

P.S..: Estou com algumas dificuldades essa semana, resolvi postar Saramago, apenas para não deixar em branco minha semana...
Beijos afetuosos a todos!

2 comentários:

Antonia Albuquerque disse...

Olá menina, passando para deixar um oi, e amo Portugueses, pois já morei e trabalhei em Portugal.

Bjão e bom final de semana

mell® disse...

Olá Antonia!
Obrigada pela visita!

Na realidade me propus a NESTE blog postar apenas coisas e textos meus, mas essa semana foi OVER e para não passar em branco foi Saramago que surgiu.
Bonito esse poema e acabou ganhando um pedacinho do meu Blog.

Vamos ver se pelo menos amanhã surge alguma isnspiração!

Beijooo